BARRABÁS

09/02/2011 12:42

Autor: Autor Desconhecido
Tema: Páscoa
Personagens: Narrador, Barrabás, Mulher, Homem, Sahak, Feitor, Romano, Alguém, Outro, Soldado, Ancião.
Tempo aproximado: 30 minutos
Sinopse: Conta a história de Barrabás depois da morte de Jesus, ele viu cristãos morrerem pelo seu Deus e no leito de morte se entrega nas mãos do Senhor.


CENA I: (abre-se o pano. O palco está às escuras, mas se divisa, ao fundo, três cruzes e algumas pessoas - vultos - diante das mesmas).
NARRADOR: Todos sabem como Ele foi crucificado, juntamente com dois outros, e quais as pessoas que se achavam em volta dele. Eram Maria, sua mãe, Maria Madalena e Verônica, Simão Cirineu, que o tinha ajudado a carregar a cruz e José de Arimatéia, que o tinha de amortalhar (pausa). Um pouco afastado dos outros, porém, mais abaixo da encosta, um homem observava constantemente aquele que estava pregado na cruz, lá no alto, acompanhando a sua agonia do começo ao fim. Chamava-se Barrabás... (cai um jato de luz sobre Barrabás, que se encontra mais retirado).
BARRABÁS: Sim, eu sou Barrabás; Barrabás, o prescrito! Barrabás, o bandoleiro! Barrabás, o assassino! ...mas aquele lá, pregado no madeiro, quem é? O que fez ele para morrer assim? Não posso compreender... não é da minha conta, mas como puderam condená-lo assim? Vê-se que não é criminoso... (ouve-se sussurros fortes cadenciando ao fundo: Barrabás...Barrabás....Barrabás...). Por que escolheram a mim? (ouve-se a voz de Cristo no madeiro, balbuciando: “Deus, meu Pai, por que me abandonaste” ? O palco escurece totalmente; o panop fecha-se lentamente). Sim, eu sou Barrabás, o libertado! Não tive mãe, jamais ouvi falar em meu pai. Sou um pária; a escória; um verme. Depois que o tal Jesus morreu no Gólgota, voltei para Jerusalém. Afinal, eu conseguira livrar a minha pele. Voltei para os meus. A partir de então, os que se chamavam de “cristãos” passaram a repudiar-me... e os cristãos eram muitos. Encontrei-os nas ruas, nas praças, nos albergues...Eu procurava saber mais sobre o homem do Gógota, aquele a quem chamavam de Mestre... amai-vos uns aos outros...era o que diziam. Acreditavam firmemente que seu Mestre ressuscitaria e não tardaria a vir à frente de suas legiões celestes para instalar seu Reino...Um novo mundo iria começar...sem imperfeições, sem pecados, sem maldade...gente louca! (entra em cena uma mulher vestida com trajes da época. O jato se extingue e acende-se um refletor colorido). Tu, tu és uma cristã, não és?
MULHER: (um tanto amedrontada). Sim...sou...
BARRABÁS: Diga-me, então, como podes crer num homem que morreu pregado numa cruz? Não era ele o Mestre, o Filho de Deus? Por que, então, não destruiu seu inimigos?
MULHER: Por que estava determinado que assim tinha que acontecer.
BARRABÁS: Determinado? Estava decidido que ele seria crucificado?
MULHER: Sim, está nas Escrituras. O próprio Mestre profetizou.
BARRABÁS: Não compreendo a razão dessa absoluta necessidade de morrer e, ainda mais, de um jeito tão horrível...
MULHER: Ele morreu por nós.
BARRABÁS: Morreu por nós?
MULHER: Sim, em nosso lugar. Sofreu e morreu inocentemente por nossa causa. Devemos admitir que somos nós os culpados, e não ele. (a mulher se retira. Barrabás fica perplexo. Ouve-se, ao fundo, sussurro forte: Barrabás...Barrabás...Barrabás... Entra um homem em cena).
BARRABÁS: Tu também és cristão?
HOMEM: Sim, sou.
BARRABÁS: Conheceste o homem do Gólgota?
HOMEM: Era o Filho de Deus!
BARRABÁS: Como podes dizer tamanho absurdo? O Filho de Deus crucificado? Impossível! Tu és louco...há, há, há, há....louco...
HOMEM: Não, não sou louco. Sou, isso sim, um covarde. Abandonei meu Mestre enquanto ele sofria e agonizava. Abandonei-o e fugi. Como poderá ele me perdoar? Que direi quando ele me interrogar? (oculta o rosto em desespero).
BARRABÁS: Ele te perdoará.
HOMEM: Achas que sim? Achas que sim (agarra as mãos de Barrabás; um grupo de homens se aproxima).
_________: Acaso não sabes quem é esse homem?
HOMEM: Não.
_________: Este é Barrabás, o que foi libertado em lugar do Mestre. (O homem fica horrorizado, e os outros ficam revoltados).
___________: Deixemos esse maldito! (o palco escurece novamente e o jato ataca Barrabás).
BARRABÁS: ...e assim se deu. Fui sendo escurraçdo pelos homens que se diziam cristãos, carregando em mim a culpa que não tive. Juntei-me novamente aos bandidos de Elihaú, a quem matei para me tornar chefe do bando. Cometi muitos assaltos e crimes. Acabei sendo preso e enviado às minas de cobre de Chipre. Foi lá que conheci Sahak... Fui correndo a Sahak logo que chegamos, eu e ele, às minas...Sofremos por longos anos, juntos, todos os suplícios que se pode imaginar. Éramos chicoteados a todo instante. Às vezes, desmaiávamos de fome. Sentíamos frio, e muitos de nós morriam de doenças, pestes dolorosas...Descobri, um dia, que Sahak era um deles. Sim, uma noite vi Sahak fazendo gestos estranhos e balbuciando palavras incompreensíveis. Sahak era cristão! Nunca tinha visto Deus...mas acreditava nele e falava-me dele com carinho, com amor... Dizia que, quando o Redentor viesse novamente, todos seriam salvos. Mas, então, todos aqueles que apodreciam nas minas seriam chamados à luz?...mas isso não aconteceu...ao menos para os outros...Eu e Sahak, alguns anos depois, fomos libertados das grilhetas levados para fora da mina. Sahak atirou-se ao solo, dizendo: Ele veio! Ele veio! Seu reino está aqui! Fomos trabalhar como escravos, no arado, na casa de um senhor romano... Estávamos novamente em contato com a natureza. Podíamos ouvir o cantar dos pássaros, podíamos sentir as carícias da brisa, ver pôr-do-sol, molhar os nossos corpos na chuva. Era a redenção, como dizia Sahak. O Senhor se lembrará de nós, dizia ele. Mas, e os outros? Os outros continuaram apodecendo nas minas. Por isso não consegui entender que espécie de Salvador era aquele.(apaga-se o jato. O palco permanece alguns segundos às escuras; o pano se abre. Acendem-se as luzes. Há um cenário pobre. Mesa e bancos rústicos. Sahak entra em cena).
BARRABÁS: Sahak!
SAHAK: Barrabás! Então, aqui está melhor que nas minas, não é?
BARRABÁS: Sim, aqui temos comida...não somos chicoteados, nem precisamos andar acorrentados...
SAHAK: Isoo tudo, Barrabás, é obra de Cristo, nosso Deus...
BARRABÁS: É?
SAHAK: Sim. Tu também és cristão, Barrabás, só não queres aceitar.
BARRABÁS: Não entendo, como assim?
SAHAK: Tu tens medo de ser cristão, Barrabás. Tens medo que o senhor romano venha a descobrir...
BARRABÁS: Medo, eu? Nunca!
SAHAK: Então vamos gravar na tua placa as inscrições de nosso Deus...
BARRABÁS: Está bem.
(Sahak inicia o trabalho de gravação e vai explicando o significado da mesma a Barrabás).
SAHAK: Essa inscrição, Barrabás, significa que, a partir de agora, teu corpo e tua alma pertencem ao Filho de Deus, de quem és escravo. Quem me ensinou isso foi um escravo grego, que era cristão e que me ensinou a crer. Eu o encontrei trabalhando nos fornos de fundição, onde ninguém resistia por mais de um ano. O grego não resistiu nem isso. Morreu logo depois no abrasador inferno das fornalhas. As suas últimas palavras foram: Senhor, não me abandones. A partir de então, tornei-me um cristão. (finda a inscrição, Sahak ajoelha-se).
SAHAK: Agora, Barrabás, agradeçamos ao Senhor por nos ter livrado das minas. (Barrabás, arredio, ajoelha-se).
SAHAK: Ó Mestre, nós te agradecemos...(Barrabás olha desconfiado). Repita comigo, Barrabás. Ó Mestre, nós te agradecemos...
BARRABÁS: ...mestre...agradecemos...
SAHAK: Por tudo de bom que nos proporcionaste...
BARRABÁS: Por tudo de bom que nos proporcionastes...
(Nesse instante, entram os soldados, o senhor romano e o feitor dos escravos).
FEITOR: Levantem-se! (o senhor romano toma a placa de Sahak).
ROMANO: O que significa essa placa, escravo?
SAHAK: Que sou propriedade do Estado romano.
ROMANO: Muito bem, muito bem! (vira a placa). Christus Iesus...Quem é este?
SAHAK: É o meu Deus.
ROMANO: Ah, sim? Não me lembro de já ter ouvido falar neste nome. Mas tem tantos deuses por aí que não se pode estar a par de todos. Deus do teu país natal?
SAHAK: Não. É o Deus de todos os homens.
ROMANO: Ah, de todos os homens? Que dizes? Esta é muito boa, e eu nem mesmo ouvi falar nele... e por que carregas o nome dele na tua placa de escravo?
SAHAK: Por que pertenço a Ele.
BARRABÁS: Ah, é? Pertences a Ele? Mas não és escravo do Estado romano? (Sahak permanece mudo). Então, pertences ou não ao Estado?
SAHAK: Pertenço ao Senhor, meu Deus. (o romano nada diz e volta-se para Barrabás).
ROMANO: ...e tu, Barrabás, cres neste deus? (Barrabás está calado, cabisbaixo. Sahak o fita). Dize-me, acreditas nele? (Barrabás sacode a cabeça negativamente). Não? Então porque trazes o seu nome na tua placa? (Barrabás, calado). Então, não é o teu Deus? Não é isso que a inscrição significa?
BARRABÁS: Eu não tenho deus algum... (Sahak lança-lhe um olhar de desespero e dor).
ROMANO: Não te compreendo, escravo. Por que, então, esta gravação na tua placa?
BARRABÁS: ...porque...eu gostaria de crer. (o romano volta-se para Sahak).
ROMANO: Manténs o que disseste?
SAHAK: Sim.
ROMANO: Se abjurares a tua fé nada te acontecerá. Consentes em fazê-lo?
SAHAK: Não posso renegar meu Deus.
ROMANO: Mas se não o renegares, poderás perder tua vida...
SAHAK: Não posso perder o Senhor, meu Deus.
ROMANO: Então, nada mais posso fazer por ti. És louco como o teu Deus...Levem-no!
(Todos se retiram do palco. Barrabás permanece; somente um jato sobre ele).
BARRABÁS: Depois disso, Sahak foi torturado brutalmente e crucificado. Seu corpo, ensangüentado, pendia da cruz. (pausa)...o campo estava muito verde e coberto de flores. O sol brilhava sobre o mar que se estendia lá embaixo...era um dia de primavera aquele em que tínhamos saído das minas, e Sahak dissera: Ele veio! (pausa). Tempos mais tarde, o senhor romano voltou para Roma e me levou consigo...Roma era uma cidade maravilhosa. Homens e mulheres de todas as nacionalidades perambulavam pelas ruas. Havia enormes templos e edifícios. Os npbres eram transportados em suas liteiras douradas até os estabelecimentos dos banhos...Contionuei escravo do senhor romano, mas, então, eu tinha mais liberdade...podia andar pelas ruas de quando em vez...Procurei muito pelos cristão; era difícil encontrá-los...Onde estariam os que afirmavam amar uns aos outros? Certa noite, ao dobrar uma esquina, viu um enorme incêndio. O povo corria a minha volta. Diziam que eram os cristãos que haviam iniciado a rebelião. Enfim, o grande dia chegara! Os cristãos ateavam fogo à Roma. Soara a hora! O Salvador chegara! Desta vez eu não iria traí-lo; não desta vez! Agarrei um facho incandescente e corri pela cidade, ateando fogo onde podia. Jesus devia estar orgulhoso de mim...Enfim, Barrabás acreditava...Lutava por Ele! (pausa)...mas... de repente...fui aprisionado pelos soldados e atirado aqui nesta masmorra... (Barrabás cala-se. Há um breve instante de silêncio. Aos poucos, a iluminação começa a mostrar outros vultos. Barrabás não está só. Ouve-se murmúrios).
ALGUÉM: Quem teria feito isso?
OUTRO: Foram os próprios homens de César que atearam fogo à Roma para incriminar os cristãos.
OUTRO: Sim, não foram os cristãos! Nosso mestre incendeia almas, não cidades.
OUTRO: Deus é amor, é luz, é bondade... (a porta se abre e entram dois soldados).
SOLDADO: Ah! Tu és o líder dos incendiários, e vós outros quereis afirmar que não participastes do incêndio. Mentirosos!
ALGUÉM: Não é possível...
SOLDADO: O que não é possível?
ALGUÉM: Ele não pode ser cristão. Se fez o que dizes, não é cristão.
SOLDADO: Pois ele mesmo confirmou tudo no interrogatório e disse que era cristão. Querem ver uma coisa? (o soldado exibe a placa de Barrabás aos outros). Não é, por acaso, o nome de vosso Deus? (os homens se reúnem para ver a inscrição; o soldado retira-se).
ALGUÉM: És de fato cristão?
OUTRO: Por que fizeste isso?
OUTRO: Fala, homem, o que houve? (depois de alguns segundos sem resposta, dirigem-se para o fundo do cárcere, onde estava um ancião. Susurros. O ancião aproxima-se de Barrabás).
ANCIÃO: Já faz muito tempo... Fazendo o que fizeste, meu filho, não ajudaste ao teu Senhor...
BARRABÁS: Mas eu lutei por Ele! Enfrentei os soldados.
ANCIÃO: Ninguém conhece os caminhos de Deus...
BARRABÁS: Mas foi por estes cristãos que o Mestre morreu na cruz?
ANCIÃO: O Semhor é de uma bondade infinita. Ele tem perdão para todos.
OUTROS: Quem é este? Quem é este?
ANCIÃO: É Barrabás, aquele que foi libertado em ligar do Mestre...(sussurros). É um hpomem desgraçado; não temos o direito de julgá-lo. Não temos o direito de condenar um homem por que ele não tem Deus. (todos se afastam de Barrabás. O palco fica às escuras. O pano fecha lentamente; música).
NARRADOR: Barrabás novamente ficou só. Permaneceu solitário durante todos os dias de reclusão, afastado dos outros. Ouvia-os cantar seu cânticos de fé e falar da vida eterna que os aguardava. Foram levados para o suplício, acorrentados dois a dois. (aqui o pano torna-se a abrir lentamente). Barrabás ficou por último no cortejo. Do mesmo modo, ficou completamente só, no extremo de fileira de cruzes. Havia muita gente reunida para ver, e demorou muito para que tudo acabasse. Os crucificados dirigiam-se mutuamente palavras de consolo e esperança... Com Barrabás ninguém falava. À hora do crepúsculo, os expectadores já se tinham retirado, fatigados por ficarem tanto tempo em pé. Al;ém disso, os condenados estavam mortos. Só Barrabás ainda vivia...Sentindo aproximar-se a morte, ele, o bandido, o assassino, disse na escuridão, como se falasse para as estrelas:
BARRABÁS: A ti , Senhor, entrego minha alma! (música).
NARRADOR: Barrabás ouviu uma voz como vindo das próprias estrelas:
VOZ: Ainda hoje, Barrabás, estarás comigo no paraíso! (música).